Especialistas alertam sobre a queda na vacinação infantil e a possibilidade do retorno de doenças graves

Os dados levantados por pesquisadores em relação ao quadro vacinal de crianças menores de cinco anos no Brasil apontam para uma drástica queda no número de imunizados, nos últimos seis anos.

Uma preocupação na área da saúde, uma vez que a não imunização do público infantil pode gerar graves consequências, inclusive o retorno de doenças até então erradicadas.

“A gente tem como exemplo a presença de casos de poliomielite no continente africano e em Israel, uma nação desenvolvida, com uma questão econômico-social bem estruturada e que, no entanto, teve o surgimento de casos de poliomielite, o que serve de alerta para os brasileiros. A Sociedade Brasileira de Pediatria e a Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro já emitiram os documentos comunicando o estágio de risco em que estamos. Precisamos melhorar com urgência a cobertura vacinal de todas as vacinas do Programa Nacional de Imunização”, destaca Dr. Felipe Moliterno, médico infectologista e pediatra, professor da Faculdade de Medicina de Petrópolis (Unifase/FMP).

O médico, que também é mestre em Medicina Tropical pela Fiocruz, explica que a manutenção do status das principais doenças infecciosas cobertas no calendário infantil, como: difteria, tétano, sarampo, poliomielite, dentre outras, dependente de uma manutenção da cobertura vacinal, com 95% da faixa etária alvo imunizada.

No entanto, com a pandemia, a população vem negligenciando ainda mais o calendário básico do Programa Nacional de Imunização.

“A princípio as pessoas ficaram com receio de ir aos postos de vacinação, por conta da pandemia. Há um bom tempo, a gente consegue ter uma epidemiologia de proteção vacinal, de tal forma que não justifica qualquer atraso em coberturas vacinais inferiores a 50% do objetivo. Nesse momento, o país se encontra em extrema vulnerabilidade a doenças infecciosas já controladas no nosso território e que podem ressurgir, que são a poliomielite e o sarampo. Falando de sarampo, falamos em desnutrição e em óbitos, não apenas em sequelas. No caso da poliomielite, muitas vezes a pessoa se recupera, mas além de poder levar a óbito, é uma doença que acarreta na saturação das equipes e equipamentos de saúde rapidamente, com crianças evoluindo com gravidade para ventilação mecânica”, frisa o médico.

A professora e pesquisadora, Patrícia de Moraes Mello Boccolini, do Núcleo de Informação, Políticas Públicas e Inclusão Social (NIPPIS) do Centro Universitário Arthur Sá Earp Neto / Faculdade de Medicina de Petrópolis (Unifase/FMP), em parceria com a Fiocruz, recebeu financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Bill e Melinda Gates para a pesquisa " O papel das mídias sociais, Programa Bolsa-Família e Atenção Primária em Saúde na cobertura vacinal em crianças menores de cinco anos no Brasil, VAX*SIM".

O trabalho apresenta dados interessantes sobre a cobertura vacinal no país, inclusive destacando a importância da Atenção Primária à Saúde.

"O país conta com um calendário vacinal bastante complexo, que mudou muito ao longo dos anos para atender melhor à população e garantir a imunização contra novas doenças, como aconteceu com a inserção da vacina do rotavírus, em 2006, como estratégia para redução de doenças intestinais em menores de cinco anos. Vimos uma clara redução de número de mortes e hospitalizações por rotavírus no país nos anos subsequentes, pois sempre tivemos bons índices de vacinação, porém desde 2016, o Brasil vem enfrentando uma queda na cobertura vacinal, então precisamos entender o que está acontecendo e onde precisamos atuar. Observamos que essa queda está menos acentuada na região norte, o que despertou a nossa atenção. Após análises preliminares, verificamos que, nos últimos anos, a cobertura da atenção básica esteve associada positivamente com a melhora no número de crianças imunizadas em todos os estados da região norte nos últimos anos, dados que apontam para o impacto positivo e a importância da atenção básica nesse contexto da cobertura vacinal”, comenta Boccolini.

Os especialistas destacam ainda um problema a ser vencido no país em relação ao processo de conscientização quanto aos benefícios da vacinação.

Apesar do amplo amparo científico em relação à eficácia, as vacinas têm sido alvo frequente de críticas e dúvidas infundadas sobre eficiência e segurança.

“Os pais não devem acreditar em fake News. Caso se sintam inseguros, devem procurar a orientação de um médico da atenção primária ou do pediatra da criança para que possam esclarecer suas dúvidas. Hoje em dia, o Ministério da Saúde também disponibiliza literaturas importantes na internet. Todos devem buscar informações em fontes seguras, com base na ciência. O meu conselho é para que pais reflitam, pois sem dúvida, a infecção por esses agentes infecciosos, que já são conhecidos e que já existem os produtos para proteger os seus filhos, é muito pior. Muitas vezes, os pais estão colocando os próprios filhos em risco. Essas vacinas são conhecidas e consagradas, há pelo menos quatro décadas, sendo o melhor método de prevenção”, ressalta Moliterno.

Nas próximas semanas, o grupo de pesquisadores do NIPPIS, em parceria com a Fiocruz, vai lançar o Projeto Observa Infância, uma iniciativa de divulgação Científica onde serão divulgados os resultados preliminares da pesquisa, mostrando os dados e as principais informações sobre a saúde de crianças menores de cinco anos, não apenas com dados sobre vacinação, mas também mortalidade infantil, aleitamento materno e todas as iniciativas que fazem parte desse quadro de identificar e pensar estratégias para prevenir mortes evitáveis.
 
Fonte: Planeg Publicidade
Imagem: Divulgação Planeg Publicidadeleft-sidebar

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