Deve ser por isto que resistimos



No domingo, acordei e deparei com a imagem de Iemanjá a nossa frente. Estava fixada a um pedestal no carro alegórico do Bloco da Barão estacionado em nossa garagem.

E, frente a frente, mutuamente nos agradecemos. Por tudo. Pairava ainda no ar, purificado pela Rainha das Águas em seu breve reinado, o orgulho do dever cumprido.

Não foram 3 dias ou 7 anos. Completamos 45 anos de desfile ininterruptos pelas ruas de Três Rios.

Durante anos, passamos por descasos públicos e privados, superamos pandemias e o ceticismo, suportamos até a ausência daqueles abnegados que nos ajudaram a resistir.

E nos agarramos à paixão incontida pelo samba daqueles que jamais soltaram nossas mãos.

Esse ano, nosso Prefeito, Joa, foi corajoso ao autorizar o primeiro desfile de um bloco carnavalesco em dois anos. Criado no mundo do samba, ele aprendeu que um bloco carrega a mais pura expressão da nossa gente.

Um bloco desaglomera porque ele aglomera alegria. E assim foi mais uma vez. Sem uma só briga em sua história porque quem carrega a felicidade só consegue amar.

Quando alcançamos a Praça São Sebastião, uma hora e trinta minutos de 2022, nossa bateria silenciou diante da primeira missa da matriz.

Por alguns instantes, igrejas e terreiros, catolicismo, umbanda, candomblé, Casa Grande & Senzala, brancos, negros e mestiços conviveram lado a lado em harmonia. Um retrato único do misticismo que faz o nosso país ser tão admirado mundo afora.

Se Pelé reinou nos gramados, Neguinho da Beija-Flor na avenida, é porque o país do samba e do futebol entendeu que o sincretismo religioso, a fusão de diferentes cultos, com a reinterpretação de seus elementos, encontrou por aqui a sua maior expressão.

Uma dádiva. Uma benção. Não um fardo que o oprime.

Não vamos deixar o samba morrer. Não vamos deixar nossos blocos acabarem. Três Rios foi feito de samba, de samba pra gente sambar. Deve ser por isto que resistimos.

Foto: Divulgação

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