Jonatan Ribeiro entrevista Seu Alípio, morador do quilombo
Durante quatro anos, o pesquisador Jonatan Ribeiro percorreu estradas de terra, participou de festas tradicionais, ouviu moradores e registrou histórias transmitidas de geração em geração. O resultado desse trabalho é uma ampla pesquisa sobre o Quilombo Boa Esperança, em Areal, que busca preservar a memória de uma comunidade cuja história permanece pouco registrada nos documentos oficiais, mas permanece viva na oralidade, nas tradições e no sentimento de pertencimento ao território.
Formado em História e mestre em Memória Social pela UNIRIO, Jonatan atualmente é doutorando em História Política e Bens Culturais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). O pesquisador explica que a motivação para desenvolver o estudo surgiu da percepção de que a importância histórica do Quilombo Boa Esperança ainda não recebia a atenção acadêmica que merece.
"Percebi que a história da comunidade, suas lutas, sua memória e suas práticas culturais mereciam um olhar acadêmico à altura de sua importância. Meu objetivo é contribuir para que essa história seja conhecida e valorizada", afirma.
Sua pesquisa tem como pilares quatro grandes temas: memória, território, identidade quilombola e ancestralidade. Mais do que reconstruir fatos históricos, o estudo procura compreender como os moradores constroem e transmitem sua identidade ao longo das gerações.
Moradora Maria de Fátima;Seu Celso e Dona Maria José, produtores de melado e rapadura,
e Dona Malvina, também moradora
"O conhecimento não está apenas nos livros. Grande parte da memória do quilombo está na voz dos moradores mais antigos, nas rodas de conversa e nos saberes transmitidos entre gerações", destaca.
A terra como elemento de identidade
Um dos principais resultados da pesquisa revela a profunda relação existente entre os moradores e o território ocupado pela comunidade.
Segundo Jonatan, a terra representa muito mais que um espaço físico. Ela reúne memória, ancestralidade e identidade coletiva.
"A descoberta mais significativa foi perceber que o território é o suporte da memória, da identidade e da ancestralidade da comunidade. É nele que a história continua sendo vivida."
Nesse contexto, a pesquisa registra duas narrativas de origem preservadas pela memória oral dos moradores mais antigos.
A primeira conta que Deolinda da Conceição — considerada a matriarca do quilombo — teria sido ama de leite e possivelmente babá de Domingos Pereira da Costa, proprietário da fazenda. Esse vínculo afetivo teria motivado a doação das terras às famílias que ali trabalhavam.
Já a segunda versão, também fortemente presente na memória coletiva, relata que, após a Abolição da Escravidão, em 1888, Domingos Pereira da Costa teria destinado uma parte de suas terras às quinze famílias que haviam sido escravizadas na propriedade, permitindo que permanecessem cultivando o local e dando origem ao atual Quilombo Boa Esperança.
Embora apresentem diferenças, ambas as narrativas reforçam o vínculo histórico entre a comunidade e seu território.
Cultura preservada pelas gerações
Além da reconstrução histórica, a pesquisa evidencia a riqueza das manifestações culturais preservadas pela comunidade.
Entre elas estão a tradicional feijoada realizada no Dia da Consciência Negra, o Festival da Beleza Negra, a capoeira, a produção artesanal de melado e rapadura e a Capela de Nossa Senhora da Conceição, considerada importante referência espiritual para os moradores.
Para o pesquisador, essas manifestações representam verdadeiros patrimônios culturais.
"As lendas locais, a capoeira e as festas tradicionais funcionam como documentos históricos vivos. Elas preservam uma memória coletiva que atravessou gerações e continua fortalecendo a identidade quilombola."
Todo esse conjunto de atividades é articulado pela associação comunitária, responsável por organizar eventos, preservar tradições e fortalecer o sentimento de pertencimento entre os moradores.
Desafios permanecem
Apesar da riqueza cultural, a pesquisa também aponta problemas estruturais enfrentados pela comunidade.
Entre eles estão a falta de pavimentação da estrada de acesso, deficiências no saneamento básico e ausência de iluminação pública em parte do percurso.
Segundo Jonatan, superar essas dificuldades é fundamental para garantir melhores condições de vida aos moradores.
"São desafios que exigem políticas públicas capazes de assegurar o pleno desenvolvimento territorial e melhorar a qualidade de vida da população."
Pesquisa que ultrapassa os muros da universidade
Além da produção científica, Jonatan pretende transformar a pesquisa em um livro dedicado exclusivamente ao Quilombo Boa Esperança.
A obra reunirá a história da comunidade, seus saberes, manifestações culturais, memórias e processos de resistência, servindo como fonte de consulta para futuras gerações.
"O compromisso da pesquisa não termina na universidade. Quero que esse trabalho contribua para dar visibilidade ao quilombo e ajude outras pessoas a conhecerem essa história."
Ao longo dos quatro anos de convivência, o pesquisador afirma que também foi profundamente transformado pela experiência.
"Aprendi que a pesquisa de campo exige humildade. Conviver com a comunidade me ensinou sobre resistência, coletividade e alegria. Cada narrativa que ouvi é um ato de afirmação. Quando um morador conta sua história, está dizendo: 'eu existo, eu resisto, essa história é minha'."
Jonatan espera que seu trabalho desperte o interesse de outros pesquisadores sobre os quilombos da região e contribua para fortalecer o reconhecimento da importância histórica e cultural dessas comunidades.
"O legado que quero deixar é simples: que a história do Quilombo Boa Esperança continue sendo contada."








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