Cultura nos Trilhos: um livro para ser lido em Três Rios


Tenho nas mãos o excelente livro “Cultura pelos Trilhos: herança cultural dos trabalhadores ferroviários de Entre Rios- 1910 a 1930” de autoria do professor Célio Cesar de Aguiar Lima. Fruto de sua tese de doutorado em História pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), defendida em 2024, essa tese foi transformada no belo livro em 2025. Dono de uma escrita fluída, o livro de Célio Aguiar Lima abrangeu outros períodos históricos da vida política, econômica e cultural da então cidade de Entre Rios.

Atravessada pela inauguração, em 1867, da Estação de Entre Rios da Estrada de Ferro Dom Pedro II (depois da Proclamação da República em 1889 chamada Central do Brasil), Estrada de Ferro Leopoldina (1874) e a inauguração da Estrada União Indústria (ligação de Petrópolis a Juiz de Fora) em 1861, o livro de Célio Aguiar Lima mostra que a então vila de Entre Rios sofre, nas décadas seguintes, um forte incremento populacional e uma atividade urbana.

Esses processos de urbanização e industrialização envolveram a chegada de muitos trabalhadores e trabalhadoras de outras regiões do país e de outros países. Professor Aguiar Lima nomeia e destrincha a origem estrangeira (de outros de locais de nosso país) das primeiras gerações de conhecidos sobrenomes da cidade.

Como o autor faz questão de deixar claro, seu interesse maior está na investigação da dimensão da vida desses trabalhadores e trabalhadoras fora dos momentos de trabalho nas fábricas de reparos de trens, no chamado 3 Depósito (oficina) e\ou operação da ferrovia. Trata-se de uma pesquisa em que pretendeu-se investigar o “conjunto de atividades dos operários em seu tempo de descanso e ociosidade, pois, para vivenciarem o lazer e a distração, organizavam atividades culturais amadoras” (p. 10). Por isso, o autor definiu o tempo de sua investigação no período de 1910 a 1930. Considerando a particularidade dos anos iniciais da República até a crise dos anos 1930, Célio Aguiar Lima justifica abrir a pesquisa em 1910 por que “neste ano ocorreu a organização institucional do Grupo Musical Primeiro de Maio, do grupo de Amadores Teatrais Viriato Correa e do Jornal Entre Rios” (p. 10).

Composto por 5 capítulos, o livro preenche uma lacuna importante da vida cultural de Três Rios. Estudar a relação entre os ferroviários e a música, teatro e futebol, permite uma ampliação da compreensão de aspectos da vida social de trabalhadores e trabalhadoras para além de seu tempo nas fábricas.

A documentação, a bibliografia de outros autores e autoras, junto a pequena pesquisa em reportagens de jornais à época permitiram ao professor Célio Aguiar Lima retratar com uma riqueza de detalhes sobre a formação da querida Banda Primeiro de Maio – ainda em atividade- do Grupo Teatral e do Entrerriense Futebol Clube. Destaque imenso foi conferido a descrição dos nomes das pessoas envolvidas nessas empreitadas, assim como suas vinculações profissionais. Por fim, mas certamente não menos importante, o livro de Célio Aguiar Lima traz entrevistas com figuras muito importantes no caso das instituições culturais acima mencionadas. Algumas dessas entrevistas foram realizadas em 2023. Já outras são de 2005, por meio de um projeto chamado: Memória Ferroviária” da Coordenadoria de Cultura, do Conselho Municipal de Cultura. Alguns entrevistados são nonagenários e podem levar consigo informações riquíssimas de diversos aspectos da vida trirriense (ou entrerriense). Que este livro sirva de inspiração a diversas outras pesquisas similares sobre a vida em Três Rios.

Todos que gostam desse pequeno canto do mundo chamado Três Rios, tendo nascido aqui ou sendo adotado por essa cidade- como esse que vos escreve essas linhas- deveriam ler o livro do professor Célio Aguiar Lima.



Professor Dr. Marcelo Paula de Melo é professor do curso de doutorado em Educação da UFRJ e morador de Vila Isabel –Três Rios

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