Jovem escritora trirriense, especialista em relações internacionais e ciência militar, fala sobre situação na Venezuela com a prisão do ditador Nicolás Maduro

Ação americana reacende debate global sobre soberania e poder internacional

 

Redação

A prisão do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças dos Estados Unidos dominou os noticiários internacionais nos últimos dias e reacendeu discussões profundas sobre soberania, intervenção externa e os rumos da política mundial. A operação, determinada pelo governo do presidente americano Donald Trump, ocorreu na madrugada do último sábado (3) e teve grande repercussão na imprensa internacional.

Após a ação, Maduro passou por audiência de custódia em Nova York e segue detido no presídio federal do Brooklyn ao lado da esposa, Cilia Flores. Imagens que circulam nas redes sociais mostram grande parte da população venezuelana comemorando a prisão, na esperança de um futuro melhor e do fim do regime autoritário que governa o país desde 2013, quando Maduro iniciou seu mandato com apoio do ex-presidente Hugo Chavez (morto em 2013). Em janeiro de 2025 o presidente deposto foi reeleito para um terceiro mandato consecutivo sob suspeita de fraude e uma série de irregularidades.

Ao mesmo tempo, o cenário é de incerteza. Com a queda de Maduro, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu interinamente o comando do país, com apoio das Forças Armadas venezuelanas. A transição ocorre sob forte vigilância dos Estados Unidos, que já sinalizaram possíveis sanções e ameaças caso haja desvios contrários aos interesses impostos por Washington.

Diante desse contexto delicado, a escritora trirriense Amanda Marini, 25 anos, especialista em Relações Internacionais e Ciências Militares, analisou o momento político em entrevista ao programa Vanguarda da Comunicação, da Rádio 3 Rios, apresentado por ÉlderÁzara, nesta segunda-feira (5).

Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestra em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), onde atualmente cursa o doutorado, Amanda falou ao Entre-Rios Jornal e destacou que o episódio vai muito além da Venezuela.

“Todo Estado é formado por quatro elementos básicos: território, população, governo e soberania. Quando a soberania é constantemente violada e o governo não consegue exercer controle efetivo, falamos do que chamamos de Estado falido. Ele existe juridicamente, mas é incapaz de cumprir suas funções básicas”, explicou.

Segundo a pesquisadora, apesar da existência de países mais poderosos, não há uma hierarquia formal entre Estados no sistema internacional, o que torna a intervenção americana ainda mais sensível.

“Mesmo os EUA não ‘mandam’ nos outros países. O que existe é poder relativo. A diplomacia só funciona de verdade quando há força por trás. Como dizia o Barão do Rio Branco: só conseguiremos ser pacíficos se formos fortes.”

Amanda também chamou atenção para o uso seletivo de discursos humanitários nas Relações Internacionais.

“Infelizmente, questões como fome, sofrimento da população e regimes autoritários nunca foram, de fato, o centro das Relações Internacionais. Elas costumam ser mobilizadas quando convém, como instrumentos narrativos para legitimar ações que atendem a interesses específicos.”

Como exemplo, ela citou a histórica relação dos Estados Unidos com a Arábia Saudita.

“Se a motivação fosse realmente exportar democracia, por que isso nunca foi cogitado no caso da Arábia Saudita, que também tem petróleo e um dos regimes mais autoritários do mundo? É simples: porque há parceria estratégica com os EUA.”

Para a escritora, a prisão de Maduro cria precedentes perigosos no cenário global.

“Ao normalizar a violação da soberania de um Estado, enfraquece-se todo o Direito Internacional. O recado é claro: a força pode se sobrepor às regras. Isso sinaliza para a Rússia, para a China e para outros atores que os limites jurídicos estão cada vez mais flexíveis.”

A especialista também alertou para os impactos diretos no Brasil e na América do Sul.

“A Venezuela já vive uma catástrofe humanitária, com cerca de sete milhões de pessoas que deixaram o país na última década. Um vácuo de poder tende a acelerar esse fluxo migratório, afetando diretamente o Brasil, a Colômbia e países do Caribe.”

Segundo Amanda, o caso lembra o Iraque de 2003, tema central de seu livro.

“A operação foi tática e cirúrgica, mas a lição permanece: eficiência militar não garante previsibilidade política. Derrubar um governo é mais fácil do que controlar o que surge depois. A remoção de Maduro não significa o fim do chavismo.”

Livro aborda guerras, regimes e o pós-conflito

Escritora trirriense durante momento de autógrafos na Bienal do Livro ano passado

Amanda Marini é autora do livro “Quando a guerra não tem fim”, lançado pela editora Uiclap. A obra teve pré-lançamento na Bienal do Livro do Rio, em junho do ano passado, e lançamento oficial em 1º de agosto de 2025, na Livraria CL Prime Store, em Três Rios.

Segundo a autora, o livro é fruto de anos de pesquisa acadêmica, desde a iniciação científica até o doutorado, e surgiu a partir da ausência de obras nacionais, em português, que tratassem de guerra, geopolítica e estratégia militar sob uma perspectiva brasileira.

“Percebi que tudo o que existia era traduzido. Não havia produção nacional sobre o tema. Então decidi escrever o livro, considerando o interesse crescente das pessoas por geopolítica, guerras e regimes militares.”

Em meio a um mundo cada vez mais instável, a análise da jovem escritora trirriense ajuda a compreender que a crise venezuelana não é um episódio isolado, mas parte de um cenário global em que poder, interesses estratégicos e soberania voltam a ocupar o centro do tabuleiro internacional.

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