BR-393 vira rota de risco

Após fim da concessão, buracos, falta de assistência e sequência de acidentes aumentam e expõem crise na Rodovia Lúcio Meira; moradores e instituições de cidades da região cobram solução

Falta de assistência. Em Vassouras, placa improvisada alerta para buracos na pista


Valber da Costa

Quem trafega pela BR-393, a Rodovia Lúcio Meira, enfrenta hoje uma combinação perigosa: pista deteriorada, ausência de assistência ao usuário e aumento no número de acidentes. Desde o encerramento da concessão privada, em julho do ano passado, a estrada passou a operar sem serviços básicos de apoio, enquanto buracos e falhas no asfalto se espalham por diferentes trechos do Sul Fluminense, incluindo cidades da região, como Sapucaia, Três Rios e Paraíba do Sul.

Na tarde desta terça-feira (13), mais um acidente foi registrado no trecho urbano da rodovia, em Três Rios, na altura da entrada do bairro Pilões. Um carro foi atingido na traseira por um caminhão em meio à chuva. O trânsito ficou parado por alguns minutos e causou lentidão, mas, segundo apuração do Entre-Rios Jornal, não houve vítimas.

O episódio amplia ainda mais um cenário que motoristas descrevem como de abandono. Desde a saída da concessionária K-Infra, ambulâncias, guinchos, inspeção de tráfego e atendimento ao usuário deixaram de operar de forma contínua, aumentando os riscos em uma das principais vias de ligação do interior do estado.


Reclamações

Em Paraíba do Sul, número de buracos chama a atenção

Motoristas relatam prejuízos frequentes. Mensagens enviadas à redação do Entre-Rios Jornal descrevem pneus estourados, rodas danificadas e acidentes evitados por pouco. “Desde que a K-Infra saiu, a situação, que já não era boa, ficou horrível. Muitos buracos e zero assistência. Já perdi quatro pneus entre Paraíba do Sul e Vassouras”, afirmou um leitor. Outro motorista relatou ter amassado a roda de liga leve após cair em um buraco. “Prejuízo grande. Quem deve ser acionado para ressarcir?”, questionou.

Há registros semelhantes em diferentes pontos da rodovia. Em Vassouras, moradores chegaram a improvisar uma placa com os dizeres “atenção, buraco na estrada” para alertar quem passa pelo local. A cena virou um símbolo da precariedade enfrentada por quem utiliza a BR-393 diariamente.

A concessão da rodovia foi encerrada pelo governo federal após um processo administrativo que apontou falhas contratuais, atrasos em obras e problemas de manutenção. Com isso, a gestão passou temporariamente para o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), até que um novo leilão seja realizado. A transição, no entanto, ocorreu sem um plano gradual, o que resultou na interrupção imediata dos serviços ao usuário.

Segundo dados apresentados pela própria concessionária antes de deixar a rodovia, somente em 2024 foram realizados mais de 45 mil atendimentos, incluindo socorro mecânico, atendimento médico e inspeção de tráfego. Todo esse suporte foi encerrado de forma abrupta.

O DNIT informou que assinou ordem de serviço para obras de conservação em um trecho de cerca de 80 quilômetros da BR-393, entre Sapucaia, Três Rios e Paraíba do Sul, com investimento de aproximadamente R$ 13,4 milhões. Os serviços incluem tapa-buracos, recuperação do asfalto e limpeza da drenagem. Apesar disso, motoristas afirmam que, até agora, os efeitos das intervenções ainda não são perceptíveis.


Autoridades cobram solução


A situação levou prefeitos e lideranças do Sul Fluminense a se reunirem no fim do ano passado, em Volta Redonda, para discutir medidas emergenciais e pressionar o governo federal. O encontro reuniu gestores de municípios como Volta Redonda, Barra do Piraí, Resende, Paraíba do Sul, além de representantes empresariais e parlamentares estaduais.

Durante a reunião, o presidente regional da Firjan, Henrique Nora, afirmou que a BR-393 é vital para a economia do estado e para a segurança da população. “A falta de manutenção e a indefinição da nova concessão colocam em risco o transporte de cargas e o deslocamento de milhares de pessoas”, disse.

O prefeito de Volta Redonda, Antonio Francisco Neto, destacou que a rodovia funciona como eixo de integração regional e nacional. Segundo ele, diante da demora nas soluções, a prefeitura passou a realizar intervenções paliativas no trecho urbano, como tapa-buracos e melhorias na iluminação. “Não podemos esperar. Enquanto a concessão não se resolve, estamos garantindo condições mínimas de segurança”, afirmou.

Representantes da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e do Ministério dos Transportes sustentam que o processo de encerramento do contrato seguiu os trâmites legais e que o plano de investimentos apresentado pela antiga concessionária não atendeu aos critérios técnicos exigidos. Ainda assim, prefeitos e entidades regionais defendem que a rodovia não pode permanecer em um limbo administrativo.

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