O silêncio dos barracões fere a nossa história

Por alguns anos, cuidei da área reservada aos deficientes, na Av. Alberto Lavinas, durante o desfile das nossas escolas de samba. E em frente a ela, tinha uma cabine de jurados. Todos eles vinham do Rio. Não foram dois anos, foram oito em que colhi, durante os intervalos, suas impressões.

Sem ter noção da nossa pujança, quando vinham as primeiras e mais modestas escolas, as que abrem os desfiles, ficavam impressionados.

E enchiam a planilha de nota 10 nos quesitos. Aí quando surgiam o Bambas, Mocidade e Bom das Bocas, tinham que rasurar as notas. Não poderiam dar 12 ou 15. E saiam daqui encantados.

Esse ano, infelizmente, não teremos os desfiles. E recebemos uma definitiva lição: quanto mais ajudarmos nossas escolas, para que elas não fiquem totalmente dependentes das verbas públicas, melhor.

Já pensou se tivéssemos um prefeito que não gostasse de Carnaval, como Crivella, e não repassasse mais as subvenções?

Nossa sorte é que todos os nossos últimos prefeitos, como o Celso , que retornou com os desfiles, Vinicius, que potencializou a festa e trouxe até Anita, e Josimar, que a segurou nos momentos mais difíceis, amam o Carnaval. Joa é até covardia, uma pena assumir contido pela pandemia.

Se as escolas tivessem recursos próprios, vida pulsando em seus barracões, poderiam realizar um desfile simbólico, extra oficial, para marcar território e matar nossas saudades durante o próximo fim de semana.

Não é uma tarefa fácil. Porém, possível. Se cuido de um bloco e sofro com nossos abnegados para colocar o Bloco da Barão nas ruas durante o Réveillon, imagino uma escola de samba.

Vamos ajudar nossas escolas. É um dos nossos maiores patrimônios culturais e não merece ser perdido. Foram muitos os que escreveram sua história, como Mestres Bina, Amaro, os heróis Ivan Imperial, Nemésio e Mirandolino, os chefes de barracão, como Jorge Camburão, a arte visual de Wanderlei Rodrigues, Junior Pernambucano, poetas como Pádua, os passistas, simbolizados pelo Taroba, além do glamour de Waldir Belô. Entre tantos.

Esse ano, o Bloco da Barão fez a sua parte, e colocou samba no Réveillon. O Lobão apareceu e fez a sua, dançou até com as marchinhas em silêncio, e a Delmar mostrou, sábado, com sua Baralha de Confetes, que o trirriense ama e reverência de paixão o Carnaval. Como poucas cidades no país.

Ficou na garganta o gostinho de não assistir, outra vez, o Joel São Tiago desfilar toda sua elegância em vermelho e branco. E isso não tem preço.

Tem orgulho e tem também saudades.

Por José Roberto Padilha 
Imagem: Reprodução

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