Psicóloga do Hospital de Clínicas Nossa Senhora da Conceição explica como a tripla jornada de trabalho e os fatores sociais impactam a saúde mental feminina
Uma pesquisa da Think Olga – ONG com foco na equidade de gênero no Brasil – aponta que 7 em cada 10 diagnósticos de ansiedade e depressão são de mulheres. Muito além de uma questão individual ou biológica, esse dado é explicado por fatores sociais, culturais, familiares e profissionais. De acordo com Angélica Saldanha, psicóloga do Hospital de Clínicas Nossa Senhora da Conceição, isso acontece, em parte, porque historicamente o público feminino foi submetido a uma sobrecarga de papéis: cuidar dos filhos, da casa e dos familiares, trabalhar e corresponder às expectativas estéticas e afetivas.
“Mesmo com importantes mudanças sociais, essa divisão desigual das responsabilidades ainda permanece em muitos contextos. As mulheres também estão mais expostas a determinadas formas de violência, discriminação, desigualdade e sobrecarga emocional. Tudo isso pode produzir um estado de estresse prolongado, que repercute diretamente na saúde mental”, explica.
Nesse cenário, os quadros de ansiedade costumam envolver sintomas de preocupação excessiva, sensação constante de ameaça, pressentimento ruim, irritabilidade, inquietação, dificuldade de concentração, alterações de sono, tensão muscular, palpitações, falta de ar e outros sintomas físicos. A depressão pode apresentar tristeza persistente, sensação de vazio, perda de interesse ou prazer pelas atividades, cansaço, sentimento de culpa ou inutilidade, desesperança e isolamento. Em alguns casos, o sofrimento feminino não se manifesta por meio da tristeza, mas sim através da exaustão, dores físicas e sobrecarga.
De maneira geral, por ter mais facilidade em verbalizar os sentimentos, a mulher também costuma procurar os serviços de saúde com mais frequência em comparação aos homens. Isso pode contribuir para uma maior identificação e diagnóstico de determinados transtornos. A partir da sua experiência com Psicologia Hospitalar, Angélica observa que muitas mulheres chegam ao serviço psicológico já bastante sobrecarregadas, depois de anos de cuidados dedicados aos outros. “Elas só procuram ajuda quando o sofrimento já está comprometendo o sono, os relacionamentos, o trabalho ou a própria capacidade de cuidar de si. Por isso, é preciso procurar ajuda quando perceber que os sintomas deixaram de ser pontuais e passaram a interferir na sua vida cotidiana, sem deixar chegar no limite”, explica Angélica.
O impacto da violência na saúde mental
Além da desigualdade de gênero e da sobrecarga intensa causada pela dupla ou tripla jornada de trabalho, fatores como violência, relacionamentos abusivos, dificuldades financeiras, insegurança socioeconômica e falta de rede de apoio também contribuem para o adoecimento mental das mulheres. No caso da violência — física, psicológica, sexual ou patrimonial — os sintomas são ainda mais agravantes, incluindo quadros de ansiedade, depressão, medo, culpa, vergonha baixa estima, alterações do sono, hipervigilância, dificuldade de confiar nas pessoas, entre outros.
Por isso, segundo a psicóloga, o tratamento demanda um espaço de acolhimento com escuta qualificada e segurança. Nesse contexto, a intervenção psicológica contribui para a “desconstrução do sentimento de culpa” ao fazer a mulher entender que não é responsável pela violência sofrida, da qual é vítima. “Também é necessário respeitar o tempo e a autonomia da mulher. O profissional não deve substituir sua capacidade de decisão, mas ajudá-la a recuperar recursos internos, fortalecer sua autonomia e ampliar sua percepção de possibilidades”, afirma.
Dependendo da situação, o trabalho psicológico também envolve a construção de estratégias de proteção, fortalecimento da rede de apoio e articulação com outros serviços da rede de atenção, como assistência social e serviços especializados de enfrentamento à violência. O tratamento funciona como processo de reconstrução, no qual a mulher possa, gradualmente, recuperar segurança, autonomia, autoestima e perspectivas para sua própria vida.
O Hospital de Clínicas Nossa Senhora da Conceição tem uma série de ações internas voltadas para o cuidado com a saúde mental. A unidade atua com o Florescer, programa da Rede Santa Catarina, do qual a instituição faz parte, voltado ao acolhimento, à escuta e à proteção das mulheres, oferecendo um espaço seguro para orientação e apoio, contribuindo para o fortalecimento e reconstrução da autonomia feminina. O trabalho é preventivo e acolhedor, promovendo informação, conscientização e acesso a redes de apoio. Em dois anos, já foram registrados mais de 180 atendimentos em toda a Rede SC por meio da iniciativa, sendo que parte significativa das colaboradoras atendidas rompeu com o agressor e obteve medida protetiva.
O hospital também atua com ações voltadas para todos os colaboradores, como o Cíngulo, aplicativo voltado à promoção e cuidado com a saúde mental, e o ASA (Agente de Suporte ao Acolhimento), uma rede de pessoas preparadas para oferecer escuta, acolhimento e direcionamento diante de situações de sofrimento.
Sinais de urgência
“Precisamos olhar para a mulher de maneira integral. Não podemos cuidar apenas do sintoma; precisamos compreender a história, os vínculos, as condições de vida, as perdas, as violências, as responsabilidades e os recursos que essa mulher possui. A saúde mental também passa pelo direito de ser cuidada — e não apenas pelo dever de cuidar”, comenta Angélica. Assessoria HCNSC
Imagem: Reprodução IA
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