Aos 82 anos, Vavá continua atrás da cadeira e da tesoura; ao lado dele, jovens como Samuel representam a continuidade de uma tradição que já fez história na cidade
Redação
Há profissões que mudam com o tempo. Outras mudam o próprio tempo de quem as exerce. Em Três Rios, a arte de cortar cabelos e fazer a barba carrega histórias de amizade, confiança, encontros e muitas lembranças. Entre tesouras, máquinas e navalhas, gerações de barbeiros ajudaram a construir parte da memória da cidade.
A Câmara dos Deputados identifica 11 de maio como Dia Nacional do Barbeiro. Já 19 de janeiro é oficialmente o Dia do Cabeleireiro, instituído pela Lei nº 12.592/2012, que também abrange profissionais de beleza. Mas o 6 de setembro aparece em calendários como uma data comemorativa associada ao cabeleireiro/barbeiro.
Neste domingo, 6 de setembro, data que popularmente é lembrada como Dia do Barbeiro, a homenagem ganha rostos e histórias. Uma delas tem nome e sobrenome: Sinival de Araújo Santanna, o Vavá.
Aos 82 anos, ele continua trabalhando. Acorda diariamente às 5h, cumpre uma jornada que pode chegar a dez horas e, apesar da idade, ainda recebe crianças, jovens, adultos e idosos. Dorme cedo, mas passa boa parte do dia com a tesoura nas mãos.
No dia 20 de agosto, Vavá comemorou 62 anos de profissão. Mais do que uma marca profissional, a data representa uma vida construída atrás da cadeira de barbeiro.
Nascido em Queima-Sangue, em Paraíba do Sul, Vavá começou a trabalhar precocemente, aos 15 anos. Primeiro atuou na localidade conhecida como Fernandó. Depois, passou pelo centro de Paraíba do Sul, onde trabalhou no antigo Mercadinho, em frente à antiga rodoviária, até seguir para Três Rios.
Foi na cidade que seu nome ficou definitivamente ligado ao tradicional Salão Copacabana, espaço que se tornou ponto de encontro de homens de diferentes áreas da sociedade.
O salão teve sua história iniciada na Rua Barão de Entre-Rios, sob direção do saudoso Atalide Vargas Soares, o saudoso Loló, que faleceu no trágico acidente com o ônibus da Viação Pedro Antônio, em 1977; antes de mudar para a Avenida Condessa do Rio Novo, nas proximidades do Hotel Cater, e posteriormente para a extinta galeria ao lado do Bramil, na região da Praça da Autonomia. Vavá faz questão de lembrar precisamente de sua longa trajetória no estabelecimento: 54 anos, 6 meses e 24 dias.
Durante décadas, passaram pela cadeira clientes dos mais diferentes segmentos. Entre eles, nomes conhecidos do comércio, da política, como os prefeitos José Araújo Damasceno, Cézar Pereira Louro, Joacyr Barbaglio Pereira (Joa), e da vida empresarial da região, como Aguinelo, o Nelinho da Cerâmica; o senhor Cardão, da Casa Cardão; Josemo Corrêa de Mello, do Bramil; e Paulão, também ligado ao Bramil. Deputados federais e estaduais e vereadores também fizeram parte da extensa lista de clientes do meio político.
Vavá aos 82 anos e em plena atividade fala com orgulho dos 62 anos de profissão
Mas o Salão Copacabana era muito mais do que um lugar para cortar cabelo.
Por ali também trabalharam profissionais que ficaram na memória da cidade, entre eles DelcySimas Guimarães, Manoel Molina, Francisco Menezes, Emílio José Franco, José Werneck da Cruz, o Zezinho, e Carlos Vargas Filho, o Carlito; todos falecidos.
Com Delcy, Vavá dividiu não apenas o trabalho, mas uma sociedade que, segundo ele, durou 47 anos, 6 meses e 11 dias.
A tesoura que construiu amizades
Ao falar dos 62 anos de profissão, Vavá não destaca apenas a quantidade de cabelos cortados ou o tempo de trabalho. O que emociona o barbeiro são as pessoas que passaram por sua vida.
“Com a ajuda de Deus consegui formar meu filho, professor de matemática, e a minha filha Micheli, advogada, ambos formados em Valença. Criei uma vida social através de Deus e da tesoura, com vários amigos na região”, conta. Na família, Vavá também comemora os netos Talis e Luane e a bisneta Helena, xodó dos bisavós.
Casado há quase 59 anos com Maria José da Rocha Santana, com quem celebra a união no dia 17 de setembro, Vavá construiu uma família enquanto construía também sua trajetória profissional.
E há outra paixão que acompanha o barbeiro: a música. Vavá toca violão e sanfona, instrumentos que fazem parte de sua vida e ajudam a revelar um pouco mais do homem por trás da tesoura.
Entre tantas histórias, uma das que mais emocionam Vavá é justamente aquela que revela o lado humano da profissão.“Às vezes o cliente não tinha nem o dinheiro da passagem”, mas a honestidade o fazia retornar para acertar o pagamento pendente.Conta que houve ocasiões em que clientes chegavam e diziam que estavam sem dinheiro — alguns sem sequer ter o suficiente para a passagem de volta para casa. Vavá ajudava. Pagava a passagem e dizia para o cliente voltar depois para acertar o corte. Para ele, a confiança era mais importante que o dinheiro naquele momento.
A tesoura, dessa forma, acabou funcionando como uma espécie de ponte. Ligou Vavá a centenas de pessoas e transformou clientes em amigos.
Uma nova geração chega com outras técnicas e os mesmos sonhos
Enquanto Vavá representa uma geração que aprendeu a profissão no convívio diário e na experiência, jovens barbeiros mostram que a atividade continua despertando interesse.
É o caso de Samuel Matheus Scarp de Carvalho, de 19 anos.
Ele começou a atuar na profissão aos 14 anos e segue os passos do pai, Natanael Borges de Carvalho, que há cerca de 30 anos trabalha no ramo.
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O jovem Samuel, com o cliente Jonas, segue os passos do pai |
Natanael manteve durante anos um salão próximo ao Calçadão da Boemia e atualmente trabalha em uma loja bem montada e anexa ao Entrerriense FC. Samuel cresceu acompanhando o pai e transformou a convivência com a profissão em escolha profissional.
A história também chama a atenção de quem frequenta o salão.
O vendedor Jonas Silva começou a cortar o cabelo com Natanael quando tinha aproximadamente 15 anos. Saía do colégio e ia ao salão. O que começou como uma necessidade virou hábito e, posteriormente, uma relação de confiança.
Hoje, quando Natanael não está disponível, é Samuel quem assume a tesoura.
É a mesma cadeira, a mesma família e uma nova geração assumindo o ofício.
A lembrança de Darcy e a placa que chegou à televisão
A história dos barbeiros de Três Rios também passa por personagens que ficaram marcados pelo bom humor e pela maneira peculiar de receber os clientes.
Entre eles está Darcy Gonzaga da Costa, mineiro de Santa Rita de Jacutinga e profissional que mantinha um pequeno salão na Rua Rita Cerqueira, no conhecido Beco do Peru. Darcy morreu em 21/5/2017, com 77 anos e em plena atividade.
O espaço era pequeno, mas a fama era grande. A clientela, predominantemente masculina, encontrava ali não apenas o serviço de barbeiro, mas também conversa, brincadeiras e um ambiente descontraído.
Darcy ficou especialmente conhecido pela placa colocada na porta do estabelecimento: “Corto cabelo e pinto”.
A frase, de duplo sentido, acabou ultrapassando os limites de Três Rios. A placa apareceu no programa de Jô Soares, em uma atração que mostrava inscrições e placas bem-humoradas espalhadas pelo país. A presença da placa do salão do Beco do Peru arrancou risos da plateia e levou um pequeno pedaço da cidade para a televisão aberta nacional.
O saudoso barbeiro Darcy e a famosa placa no Beco do Peru
Outro nome ligado à história é Sebastião Conceição Goulart, o Tião, de 70 anos. Ele começou trabalhando em casa e posteriormente passou a trabalhar com Darcy. Hoje mantém um pequeno salão em sua própria residência, onde recebe clientes, mas também atende homens e mulheres em domicílio.
Sebastião Goular e Luís Magioli trabalharam na Barbearia do Darcy
Uma profissão que se transforma sem perder sua essência
Hoje, as barbearias são diferentes. Máquinas modernas, novos estilos, cortes personalizados, desenhos, diferentes técnicas e a diversidade de tipos de cabelo ampliaram as possibilidades de trabalho.
Há profissionais jovens e experientes, especialistas em tendências e também aqueles que aprenderam a profissão observando outros barbeiros.
Mas uma coisa permanece.A cadeira continua sendo lugar de conversa.Quem senta diante do espelho não entrega apenas o cabelo ao profissional. Muitas vezes entrega alguns minutos de sua rotina, conta novidades, fala da família, comenta futebol, política, trabalho e acontecimentos da cidade.
Foi assim com Vavá. Foi assim com Darcy. É assim com Tião, Luís, Heitor, Natanael e Samuel. E provavelmente continuará sendo assim com aqueles que ainda estão aprendendo a manejar a tesoura.
No Dia do Barbeiro, mais do que celebrar uma profissão, a data permite reconhecer aqueles que, durante décadas, ajudaram a cuidar da aparência — e, muitas vezes, também da memória afetiva de seus clientes.
Aos 82 anos, Vavá continua trabalhando. A tesoura ainda está em suas mãos. E, enquanto ele corta mais um cabelo, uma história de 62 anos continua sendo escrita.






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