Farmacêutica alerta para riscos do “kit ressaca” e da automedicação durante o Carnaval



Rodolfo Brandolin

Com a chegada do Carnaval, uma prática comum entre foliões volta a ganhar força: o chamado “kit ressaca”, combinação de medicamentos usada com a promessa de aliviar os efeitos do consumo excessivo de álcool. Especialistas alertam, no entanto, que o hábito pode trazer riscos à saúde, especialmente quando envolve automedicação e o uso de remédios associados ao consumo de bebidas alcoólicas.

Segundo a farmacêutica bioquímica Christiane Gatti, o principal problema é que esses medicamentos não tratam a causa da ressaca, apenas mascaram os sintomas. “Essa prática está muito mais baseada em hábito e crença popular do que no real funcionamento dos medicamentos no organismo”, explica.

Entre os produtos mais utilizados estão analgésicos, antiácidos e medicamentos associados à função hepática, como paracetamol, Engov e Epocler. Apesar de muitos serem classificados como medicamentos isentos de prescrição, Christiane ressalta que isso não significa uso livre. “A orientação farmacêutica é fundamental, inclusive para medicamentos que não exigem receita”, destaca.

Do ponto de vista clínico, o álcool já provoca alterações no organismo, como desidratação, irritação gástrica e sobrecarga do fígado, responsável por metabolizar a substância. A associação com medicamentos pode aumentar o risco de interações e efeitos adversos, mesmo com fármacos considerados comuns.

Um exemplo é o paracetamol, amplamente usado para dor de cabeça. “Ele é metabolizado no fígado, o mesmo órgão que processa o álcool. O uso conjunto pode elevar o risco de toxicidade hepática, principalmente em casos de consumo excessivo ou frequente”, alerta a farmacêutica.

Outro medicamento frequentemente presente nesses kits é o Engov, popularizado por campanhas antigas. No entanto, de acordo com Christiane Gatti, seu uso com álcool é contraindicado. “A bula é clara ao indicar que o medicamento não deve ser utilizado junto com bebidas alcoólicas, pois pode causar interações medicamentosas relevantes”, afirma.

Já o Epocler, associado à ideia de “ajudar o fígado”, também não acelera a metabolização do álcool nem reverte os efeitos do excesso. “O fígado não fica intoxicado no sentido que esse medicamento trata. Nesse contexto, o uso está mais ligado à tradição do que a benefícios comprovados”, completa.

A farmacêutica reforça que os principais perigos do kit ressaca estão na automedicação e na mistura de diferentes fármacos em um organismo já sobrecarregado, o que pode mascarar sinais importantes do corpo e agravar problemas gástricos e hepáticos.

Para o período de festas, a orientação continua sendo a prevenção. “As medidas mais eficazes são hidratação adequada, alimentação, intervalos entre as bebidas e respeito aos próprios limites. Medicamentos não anulam os efeitos do álcool e não devem ser usados como estratégia para compensar exageros”, conclui Christiane Gatti.

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