Entre desabamentos e esperança em Juiz de Fora: O bombeiro que desafiou o risco para salvar vidas



Rodolfo Brandolin

O temporal que atingiu Juiz de Fora e levou o município a decretar estado de calamidade pública mobilizou forças de segurança e equipes de resgate em toda a cidade. Entre os profissionais que atuaram na linha de frente está o 2º sargento Renato Cestari, do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, militar com 27 anos de serviço dedicados à corporação.

Sem conseguir chegar inicialmente ao quartel devido às vias interditadas, Cestari iniciou os atendimentos ainda a caminho da unidade. Ao passar pela Avenida Olegário Maciel, encontrou policiais militares atuando em uma ocorrência no Morro do Cristo. Um deslizamento havia derrubado uma casa e a lançado contra um prédio do outro lado da rua. O entulho alcançava a altura do primeiro andar e 15 pessoas estavam presas no interior do edifício. Havia também a informação de uma vítima soterrada.

Mesmo estando em veículo particular, o sargento se colocou à disposição. Com apoio de policiais militares, e sem a presença de outra equipe do Corpo de Bombeiros naquele momento, entrou na área atingida, com barro na altura da cintura. As 15 vítimas foram retiradas pelo alto do prédio, enquanto a Defesa Civil alertava para o risco de novos deslizamentos. Diante da instabilidade do terreno, a equipe optou por não iniciar a busca pelo corpo que estaria sob os escombros naquele ponto, priorizando a preservação de vidas.


Pouco depois, outra ocorrência exigia intervenção imediata, na Rua Carmelo. Cinco casas haviam desabado. Uma mulher, identificada como Jaqueline, estava soterrada, presa pelas pernas e suspensa a cerca de cinco metros de altura, consciente e em contato com os socorristas.

Cestari avaliou o cenário como de alto risco: solo instável, pedras soltas e possibilidade de novo desmoronamento a qualquer momento. Reforços foram solicitados, mas, diante da gravidade da situação, a equipe iniciou os trabalhos.

Das 23h30 às 8h30 da manhã, os militares atuaram de forma ininterrupta na estabilização da área e na retirada da vítima. O trabalho envolveu escavação manual, contenção de estruturas e administração de oxigênio. A cada movimentação do terreno, a operação era temporariamente suspensa por segurança.

Jaqueline foi retirada com vida, apresentando múltiplas fraturas, mas não resistiu aos ferimentos após dar entrada no hospital.

Após breve pausa para hidratação e alimentação, com apoio de moradores que levaram água e mantimentos, o sargento retornou ao local e identificou outra vítima sob os escombros: a mãe de Jaqueline. Foram necessárias mais três a quatro horas para a retirada do corpo. No mesmo ponto, duas crianças, de cinco e nove anos, seguem desaparecidas.



Ao todo, Renato Cestari permaneceu cerca de 24 horas consecutivas na mesma ocorrência, sem interrupção para descanso.

Com 27 anos de atuação no Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, o sargento já participou de diversas ocorrências de soterramento, enchentes e inundações. Entre elas, a operação de buscas após o rompimento da barragem em Brumadinho, em 2019, uma das maiores tragédias ambientais do país.

Em Juiz de Fora, ele e os demais militares seguem empenhados nas buscas. A escala de trabalho foi ajustada para regime de 24 por 24 horas, diante da complexidade da operação e da previsão de novos temporais.

Enquanto a cidade contabiliza perdas e trabalha na reconstrução, profissionais como o 2º sargento Renato Cestari permanecem na linha de frente, atuando até que todas as vítimas sejam localizadas e as famílias tenham respostas.







Comentar

Postagem Anterior Próxima Postagem