
Redação
Com a proximidade do Carnaval, a contagem regressiva já começou. Basta o primeiro surdo ecoar na esquina para confirmar: “Carnaval já vem chegando e tem gente batucando”. E, junto com a batucada, vem um dos traços mais curiosos e encantadores da folia de rua brasileira — os nomes irreverentes e bem-humorados dos blocos, capazes de arrancar risadas antes mesmo do primeiro gole ou do primeiro passo de dança.
Os blocos de Carnaval sempre foram uma grande atração nas cidades brasileiras. A tradição começou a ganhar forma ainda no século 19, no Rio de Janeiro. Com a criminalização do entrudo, festa popular marcada por brincadeiras nas ruas, a elite do Império passou a organizar bailes em clubes e teatros, além de desfiles como o do Congresso das Sumidades Carnavalescas. Enquanto isso, a população mais pobre resistia e, no fim daquele século, retomava a ocupação das ruas antes da Quaresma, criando blocos e cordões organizados pelo próprio povo. Ali nascia o movimento que hoje define o Carnaval de rua.
No século 20, as marchinhas — como “Ô Abre Alas” e “Pierrô e Colombina” — ajudaram a consolidar o espírito festivo. Em 1918, o Cordão da Bola Preta, primeiro bloco de rua oficialmente registrado no Brasil, arrastou multidões pelo centro do Rio e abriu caminho para outros nomes históricos, como Cacique de Ramos e Bafo da Onça.
Com o passar dos anos, os blocos se espalharam pelo país e ganharam estilos variados: blocos de sujo, de piranhas, de embalo, de enredo, de abadá, de axé, de banho de mar à fantasia. Mas, entre tantas diferenças, um ponto em comum chama a atenção: o nome. Para muitos organizadores, ele é decisivo. “Se é engraçado, cai no gosto popular”, defendem líderes de agremiações que apostam no deboche e na criatividade para atrair foliões.
Em Três Rios, por exemplo, o humor sempre teve espaço garantido. Há blocos que ficam parados e reúnem centenas de pessoas, como Me Xupa e Domingo de Manhã. Outros desfilam pelas ruas exibindo irreverência, como Os que Bebem Não Vieram, que sai do bairro Ponte das Garças. Registros históricos mostram que essa criatividade vem de longe: nas décadas de 1920 e 1930, ranchos com nomes como Catinga da Nêga, Essa Nêga Quer me Dar e Eu, Você e Vovó já desfilavam quando Três Rios ainda pertencia a Paraíba do Sul.
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| O Boca Negra, com integrantes fantasiados de índios, animava o carnaval de rua de Três Rios |
Entre os anos 1970 e 1980, blocos de embalo e de enredo marcaram época no carnaval trirriense. Quem é Bom Não se Mistura desfilava como uma verdadeira escola de samba pela Avenida Beira Rio, enquanto Caroço de Jaca saía do bairro da Jaqueira. A atual escola de samba Sonhos de Mixyricka também nasceu bloco, inspirado no nome da banda de rock progressivo Tangerine Dream. Pela avenida passaram ainda Bafo do Grilo, Boca Livre, Gavião Azul, Cacique da Serra, Os Corsários, com fantasias de pirata, e Boca Negra, com índios tomando conta da festa sob comando do saudoso cacique Djalma Bastos Leão. O bloco fez história no carnaval trirriense.
Em Paraíba do Sul, o Bloco do Terror se tornou tradição entre os foliões com fantasias macabras e até caixões pelas ruas.
Mais recentemente, blocos de embalo mantiveram viva a tradição dos nomes sugestivos, como Empurra Não e Concentra Mas Não Sai. Outros arrastam verdadeiras multidões, caso do Unidos do Palmital e do Bloco do Galo, enquanto há os mais comportados, como Unidos de Moura Brasil. Já em Levy Gasparian, o destaque fica por conta do irreverente Jegue Elétrico, que anima a folia gaspariense reunindo centenas de jovens.

No Rio de Janeiro, capital do Carnaval, a criatividade parece não ter limites. Além dos gigantes tradicionais, surgem blocos com nomes que são quase marchinhas prontas, como Suvaco de Cristo, Balança Meu Catete, Só o Cume Interessa, Se Não Quiser Me Dar, Me Empresta, Vai Tomar no Grajaú, Largo da Mulher, Mas Não Largo da Cerveja, Nunca Mais Eu Bebo Ontem, Parei de Beber, Não de Mentir, Melhor Ser Bêbado do que Ser Corno e Já Comi Pior Pagando. A lista é extensa e reflete o espírito debochado, crítico e bem-humorado do carioca.
Entre a sátira, o duplo sentido e a brincadeira escancarada, os nomes dos blocos ajudam a contar a história do Carnaval brasileiro. Mais do que títulos curiosos, eles são convites à alegria, à ocupação das ruas e à celebração coletiva. Em tempos de expectativa para a chegada oficial da folia, uma coisa é certa: quando o nome é bom, a multidão vai atrás.


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