Escolas de samba de Três Rios mantêm uma rivalidade histórica que atravessa décadas

Imagem: Jonair de Christo


Redação

O primeiro desfile oficial das escolas de samba de Três Rios aconteceu em 1972, na Avenida Condessa do Rio Novo. Naquele ano, estrearam simultaneamente como escolas de samba as agremiações Bom das Bocas, do bairro da Caixa D’Água, e Bambas do Ritmo, do Cantagalo, que até então desfilavam como blocos carnavalescos. A avenida, à época, possuía um muro que separava a linha férrea da via asfaltada, e, às suas margens, um público crescente passou a acompanhar a evolução do carnaval trirriense ano após ano.

Registros históricos indicam que a rivalidade entre as duas escolas teve início quando o Bom das Bocas deixou de emprestar peças de bateria ao então bloco Bambas do Ritmo, que ainda adotava as cores azul e rosa. No entanto, conforme depoimento do saudoso fundador da escola do Cantagalo, Wilson Luiz Gomes, o “Titiu”, as peças utilizadas pelo Bom das Bocas pertenciam, na verdade, ao Colégio Ruy Barbosa. Posteriormente, ao assumir a presidência do Bambas do Ritmo, Elail Lima declarou à diretoria, então representada pelo também saudoso Lincoln Rodrigues, que só aceitaria o cargo se a agremiação fosse elevada à categoria de escola de samba e tivesse suas cores alteradas para vermelho e branco, em homenagem ao América Futebol Clube. A expectativa era de que a mudança atraísse torcedores do clube para a escola. Assim o Bambas mudava os rumos de sua gloriosa história. Elail, segundo relatos, conseguiu as peças de bateria junto ao empresário Comendador Levy Gasparian, que doou dinheiro para a aquisição das peças.

O próprio Bom das Bocas, segundo relatos de baluartes do carnaval local, surgiu como uma dissidência da Unidos do Caixa D’Água, escola de samba azul e branca fundada em 1945 no mesmo bairro. Inicialmente, o Bom das Bocas funcionava como um bloco exclusivamente masculino, sendo posteriormente aberto à participação feminina. As duas agremiações, no mesmo bairro, chegaram a competir com suas quadras a uma distância de menos de 200 metros uma da outra. O último desfile da azul e branca foi em 1978, quando apresentou o enredo “Exaltação à Madureira”.

Na Vila Isabel, por volta de 1971, um grupo de moradores já se articulava para fundar uma escola de samba no maior bairro da cidade. Havia entre eles torcedores do Bom das Bocas, nas cores verde e branca, e do Bambas do Ritmo, nas cores vermelho e branca. Assim, em 15 de novembro de 1971, surgia a Mocidade Independente de Vila Isabel, com as cores verde, vermelho e branco. Muitos relatos apontam que os primeiros ensaios da chamada Tricolorida aconteciam na residência do jornalista, professor e maquinista de trem Selmarino Luiz dos Santos, que por muitos anos assinou uma coluna sobre carnaval no extinto jornal O Cartaz. Em seus textos, narrava, a seu modo, as “mumunhas” — termo que costumava usar — do “ziriguidum paroquiano”. Até hoje, suas colunas, assinadas como Sambista Maneiro, são fontes preciosas da história do carnaval trirriense.

As histórias são ainda mais profundas e demandariam páginas e páginas de outros relatos e desdobramentos. Com a chegada da Mocidade, fundada em 1971, mas estreante no desfile da Avenida Condessa do Rio Novo em 1973, a competição ganhou novos contornos e ainda mais emoção. Embora muitos duvidassem da capacidade da estreante, considerada “pato” diante das duas consagradas coirmãs, o resultado surpreendeu.

Em 1973, sob um forte temporal, o desfile das escolas de samba aconteceu sob intensa chuva e marcou os primeiros passos da festa naquele formato. Em meio à água e às dificuldades, a Mocidade Independente de Vila Isabel sagrou-se campeã logo em sua estreia, tornando-se a zebra do desfile. O Bambas do Ritmo era apontado como provável campeão, mas perdeu pontos preciosos devido ao atraso na entrada, permitindo que a Mocidade assumisse a liderança com o enredo “Rio Grande do Sul, seus costumes e suas glórias”. No ano seguinte, como forma de ironizar o episódio, a escola da Vila Isabel substituiu a estrela de seu pavilhão pela figura de um pato segurando um guarda-chuva.

Em 1974, o Bambas do Ritmo comemorou seu primeiro título como escola de samba com o enredo “Honra e Glória”, popularmente lembrado pelo samba “Saravá meus batuqueiros”. No mesmo ano, a Avenida Condessa do Rio Novo recebeu o único desfile da escola verde e rosa Acadêmicos do Triângulo, com um enredo sobre a Bahia.

A rivalidade se intensificou ao longo dos anos. Em 1975, o desfile passou a ser realizado na Avenida Beira-Rio, atual Avenida Prefeito Alberto Lavinas, ainda sem a extensão atual. A concentração ocorria na Rua Sete de Setembro, ao lado do Colégio Walter Francklin, e o desfile seguia até próximo à ponte do Independência Clube.

Em 1976, a rivalidade atingiu seu ponto mais crítico. Poucos minutos após o anúncio do resultado da apuração, realizada no Teatro Celso Peçanha, uma confusão generalizada tomou conta da cidade. Um grupo de torcedores do Bambas do Ritmo, que seguia em direção à Rua Gomes Porto, já comemorava uma suposta vitória da escola vermelho e branca, enquanto surgiam informações de que o título havia ficado com o Bom das Bocas, por meio ponto a mais. A revolta resultou em quebra-quebra, pancadaria e na necessidade de reforço policial vindo de outro município. O episódio terminou com uma pessoa baleada e evidenciou a necessidade de maior rigor no processo de julgamento do carnaval trirriense. Naquele ano, desfilaram cinco escolas: Bom das Bocas, Bambas do Ritmo, Mocidade Independente de Vila Isabel, Unidos do Caixa D’Água e Unidos de Levy Gasparian.

As décadas de 1970 e 1980 marcaram profundamente o carnaval da cidade, com desfiles memoráveis ainda vivos na memória coletiva. Um dos episódios mais comentados ocorreu em 1987, quando a Avenida Beira-Rio viu mulheres completamente despidas sobre alegorias da Mocidade Independente de Vila Isabel, durante o desfile do enredo “Através dos tempos um sonho de ilusões”, que homenageava o carnaval e sua evolução. As componentes desfilaram com corpos pintados, inspiradas na moda lançada pelo artista Albery, no Rio de Janeiro, que utilizava tintas especiais resistentes ao calor, suor e chuva. Em Três Rios, no entanto, uma adaptação com guache não resistiu aos ânimos acalorados, revelando cenas que chocaram o público. A apuração ocorreu na Ilha Di Capri (Ilha do Sola), e a Mocidade terminou em terceiro lugar. O Bambas do Ritmo foi campeão, enquanto o Bom das Bocas ficou com o vice-campeonato, em meio a protestos da torcida inconformada, que elogiava o desfile criado pelo saudoso carnavalesco Wanderley Rodrigues para o enredo “O Mar de Minas Gerais”, com samba de enredo assinado pelo compositor Pádua, consagrado no Bambas por vários sambas memoráveis.



Em outros períodos, o carnaval enfrentou momentos de marasmo, com anos sem desfile que chegaram a levantar dúvidas sobre a sobrevivência das escolas de samba. Um desses momentos foi retratado em charge assinada pelo caricaturista Ulisses Araújo, publicada no próprio Entre-Rios Jornal (21/2/1998), satirizando a crise que, felizmente, não se concretizou em definitivo.

Houve anos em que Bambas do Ritmo não desfilou, assim como o Bom das Bocas. Em 1991, o desfile retornou à Avenida Condessa do Rio Novo, com concentração na Rua 15 de Novembro. Naquele ano, desfilaram, no primeiro grupo, Mocidade Independente de Vila Isabel e Sonhos de Mixyricka (sem as duas tradicionais coirmãs); no segundo grupo, Independente do Triângulo e Em Cima da Hora. No grupo principal, Mocidade e Mixyricka dividiram o título, marcando o primeiro empate da história do carnaval da cidade, repetido posteriormente em 2004, quando Mocidade e Bom das Bocas foram campeãs juntas.

Entre 1995 e 2001, o desfile oficial deixou de ser realizado por falta do apoio fundamental do poder público municipal. Em 2001, algumas agremiações chegaram a desfilar em formato de arrastão, sem caráter competitivo. A competição retornou em 2002, com os desfiles de Bambas do Ritmo, Mocidade, Sonhos de Mixyricka e Independente do Triângulo. O Bom das Bocas voltou em 2003, e a Em Cima da Hora, em 2004.

Em 2004 e 2005, o desfile chegou a ser realizado em dois dias, com a participação de seis escolas de samba, marcando a retomada da trajetória de sucesso do carnaval, fortalecida pelo apoio da Prefeitura.

Atualmente, Bambas do Ritmo e Bom das Bocas lideram o ranking de títulos, com 17 campeonatos conquistados cada. A Mocidade Independente de Vila Isabel ocupa o segundo lugar, com oito títulos, sendo o mais recente em 2019, com o enredo “Amas de leite, mães escravas de seus próprios destinos”. A Sonhos de Mixyricka aparece mais distante, com um único título no grupo principal, conquistado em 1991. Triângulo e Em Cima da Hora foram campeãs no segundo grupo, também chamado de acesso, que contou ainda com blocos elevados à condição de escola de samba. Muitas dessas agremiações, infelizmente, encerraram suas atividades, entre elas Bafo da Jaguatirica, Unidos da Ladeira das Palmeiras, Portal do Samba, Unidos da Ponte Seca e Império da Vila.

A competição de fato movimenta os bastidores e com 20 isso reacende a rivalidade para o momento do desfile.

Em 2002 e 2003 o julgamento tinha um jurado por quesito e as notas eram inteiras. A partir de 2004, adotou-se as notas decimais fracionadas: 9,9 – 9,8 etc.

A partir de 2006 o julgamento dos dez quesitos (Conjunto ainda era julgado) passou a ter dois jurados. Alguns anos depois, também a exemplo do carnaval carioca, os quesitos passaram a ser sorteados para a ordem de apuração, dessa forma também sendo a ordem fundamental em caso de desempate, seguindo a sequência do sorteio.

Faltam 26 dias para o desfile oficial, marcado para terça-feira, 17 de fevereiro, e a rivalidade sadia persiste para o bem do carnaval e da cultura trirriense.



Os 10 últimos desfiles campeões:

2014 – Bom das Bocas – Máscaras – Uma Viagem Misteriosa de Arte e Sedução
2015 – Bambas do Ritmo – Marajó
2016 – Bambas do Ritmo – Eu Sou o Samba
2017 – Bambas do Ritmo – Vem Brincar!
2018 – Bom das Bocas – Tesouros de um Rei chamado Chico
2019 – Mocidade Independente de Vila Isabel – Amas de leite, mães escravas de seus próprios destinos
2020 – Bambas do Ritmo – Sob a Luz do Luar
2021 e 2022 – Desfile oficial cancelado por conta da pandemia de Covid-19
2023 – Bom das Bocas – Folia nossa de cada dia
2024 – Bom das Bocas – Rituais de fé
2025 – Bambas do Ritmo – Iracema – o ventre de um Brasil moreno








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