A quem interessa viver sem esse brilho?

Meu pai partiu levando muitas lembranças. Foi uma vida e tanto de luzes. Mas ao seu apagar, ficou sabendo que uma das suas maiores paixões foi agredida. Entraram no seio da sua escola de samba e lhe roubaram quase tudo.

Tiraram o brilho dos seus olhos no apagar das luzes.

Foi no Bom das Bocas que bebeu a seiva desse mundo maravilhoso do samba. Viu bordadeiras que passam o ano costurando fantasias. Presenciou baianas que deixam suas cozinhas, cheias de gorduras, e vivem suas noites de rainhas entre miçangas e purpurinas.

E aplaudiu cada Mestre Sala e Porta Bandeira, porta vozes da comunidade querida da Caixa D'água, que desfraldam com orgulho suas glórias em verde e branco.

No enredo, uma aula de história que vai sendo contada na avenida. Uma ópera popular que carrega um samba enredo contando e dando vida, mesmo que seja por uma noite, das lutas de um povo colonizado em busca da liberdade.

Se alguém esqueceu de Zumbi, o Rei dos Palmares, lá vem ele no carro abre alas mostrando que jamais será esquecido pelos mais humildes. Aqueles que passam despercebidos empurrando os carros alegóricos felizes.

Felizes e libertos graças a ele, Zumbi.

Foi esse mundo mágico, um símbolo poderoso da nossa cultura popular, uma das marcas do maior Carnaval do interior do estado que tiveram a covardia de invadir, destruir troféus e alegorias. Levaram até o gás da cozinha.

O que eles, gente pequena e covarde, insensíveis com nossas raízes, não levaram, foi a grandeza da escola. Ela continua a pulsar forte dentro do coração de cada um de nós, trirrienses.

E será esse amor sólido, que não estava exposto pelo barracão, nem à vista embaçada dos que carregam o ódio das nossas riquezas, que vai fazer com que o Bom das Bocas renasça das cinzas. Como um Fênix, quem sabe, seu próximo e vitorioso enredo.

Dinheiro, rouba-se para comprar o que você não tem direito. Roubar uma escola de samba, que dinheiro não compra, ninguém deveria ter motivos ou direitos.

A quem interessa, então, tirar tanto brilho do último olhar do meu pai? Quem seria assim, tão idiota, de tentar apagar um dos maiores símbolos da nossa história?

Por José Roberto Padilha
Imagem: Reprodução

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